Um chão para chamar de meu

Sonho de consumo... Há os que ambicionam viagem ao estrangeiro, a exuberante joia da vitrine, o último lançamento tecnológico, o carro do ano, aquela cirurgia plástica. Eu desejava mesmo era um chão.

Por anos visitei casas de construção com a seguinte frase pronta:

- Não, muito obrigada, só estou dando uma olhadinha.

Era uma declaração sincera, com exceção do diminutivo da espiada, que nunca foi tão “inha” assim. Não raro, permaneci horas dentro de uma loja, passando e repassando pelos mesmos corredores, o que obrigava o vendedor a me oferecer ajuda mais de uma vez. Pena ser só apreciação. Tudo a seu tempo.

A cada passo ou contratempo, enxergava brilho novo na porcelana elegante que repousava em prateleiras. Como o Vaso Chinês de Marco Túlio Costa, a quem todos reverenciavam por sua história e nobreza, os ladrilhos cintilavam grandeza digna de adoração - era sobre eles que meus pensamentos bailavam e construíam espaços imaginários que abrigariam família, amigos, vida.

Nunca tivemos casa própria e a mudança cíclica de residência sempre fora também um movimento contínuo de perder o chão.

Chega de mudança! Foi o brado retumbante deste ano. Valentes, porém inseguros - feito soldados que não sabem ao certo se chegarão ao fim do combate, começamos a construir no auge da crise. É certo que sentimos medo, pensamos em desistir, mas seguimos adiante e, em meio à inevitável marcha de aflição e desgaste que a batalha provoca, houve o dia que entramos na loja com a frase repaginada:

- Viemos escolher o piso.

Desta vez, a caminhada foi mais alongada, ao invés de horas, durou indecisas semanas regadas por afetuoso cafezinho, pipoca e bate papo, quando enfim... Compramos nosso chão! Alegria derradeira, sonho concretizado, materializado, solidificado... Concretado. Para tudo há seu tempo.

À equipe Construlopes e Gimenez – Gratidão profunda. Vocês edificam histórias, constroem narrativas, realizam biografias.

Como a Bailarina de Marco Túlio que rodopiou para sempre dentro do venerado Vaso Chinês, nossos pés poderão agora bailar firmes e leves sobre a cobiçada porcelana, que abrigará família, amigos, vida...

Que assim seja, ao som da mais linda, perene e suave melodia.

 

Cinthia L. O. Siqueira

Outubro 2016

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